Italiano para Principinates
a morte e digestão do Dogma 95

por f. fischl

 

A imprensa internacional rotulou esta "comédia romântica" e a vangloriou devido à extrema preocupação com que a diretora conduz seus personagens. Laureado em Berlim, Italiano Para Principiantes com a benção de Lars Von Trier, constitui a quinta obra advinda do Dogma 95. No filme de Lone Scherfig, a sala de aula utilizada para o aprendizado de italiano, fica em frente aos estúdios Zentropa em Avodore, trata-se do mesmo auditório utilizado por Trier para a seqüência de ensaios da montagem de Noviça Rebelde em Dançando no Escuro.

Desta informação aparentemente superficial, muito se pode descobrir sobre este movimento que previu, dentre outras coisas, a ampla utilização que o digital teria hoje no mercado. Não que a principal característica desta escola seja a virtuose técnica, muito pelo contrário, a tecnologia aqui não é utilizada para ocultar o caráter medíocre de metade da produção de efeitos especiais consumidas por salas ao redor do planeta. A tecnologia aqui é utilizada como recurso narrativo. Fato que confirma o Dogma 95 como o único conjunto de idéias capaz de propor algo novo para cinema, desde a Nouvelle Vague francesa a mais de quarenta anos.

A unanimidade não foi absoluta acerca da cartilha de Trier, havendo quem o acusasse de mero oportunismo. É inegável que a cada novo filme lançado com o certificado dogma, o nome de Lars Von Trier seja muito mais promovido que o nome do diretor da própria obra. Contudo, hoje após alguns anos do lançamento de Festa em Família de Thomas Vintenberg e Os idiotas de Trier, pode-se compreender melhor a consistência desta proposta, sua abrangência, e o que está em jogo.

Posterior a indicação de Festa em Família ao Oscar de melhor filme estrangeiro(!?) não demorou muito para que Hollywood assimilasse a novidade. Já em 1998, após a grande repercussão adquirida pelos dois primeiros filmes do movimento, Vintenberg convida Steven Spielberg a participar do projeto. A recusa de Spielberg foi veemente, contudo o americano acolhe nos minutos iniciais de O Resgate do Soldado Ryan, a idéia da "volta às raízes" proposta pelos mandamentos dinamarqueses. O resultado da experimentação se mostrou genial, após duas décadas assistimos alguns momentos de um Spielberg frenético e inteligente. Não por acaso, os quinze minutos iniciais do filme foram descritos pela crítica internacional como "a razão para se assistir a este filme" ou "o que faz valer o seu ingresso".

Também relutante, Martin Scorsese não aceitou filmar para a série, mas brincou de Dogma em Vivendo no Limite e chamou Trier de "um cineasta maravilhoso. Ele possui uma fúria, joga tudo para o alto e diz: agora vamos começar do zero". Depois disso ninguém pode ficar indiferente, Mike Figgis após Despedida em LasVegas filma Timecode, Harmony Korine realiza o sexto filme do movimento, Spike Lee também filma em vídeo digital, e claro, extremamente fiel ao reino da Dinamarca, surge uma produção americana que obtém destaque na crítica e sucesso comercial, trata-se da franquia A Bruxa de Blair. Se os filmes outorgados com o certificado Dogma 95, foram restritos a Festivais de Cinema e aos circuitos de arte, é importante destacar que ao menos sua influência conseguiu bombardear o grande público.

Não deixa de ser curioso constatar que este movimento parece ter nascido como uma negação de Trier a todos os filmes que ele havia realizado pela Zentropa até então. Se com Europa e Ondas do Destino o diretor alcançou uma perfeição técnica, invejável até mesmo para as superproduções americanas, com Os idiotas e Dançando no Escuro o apuro é inversamente proporcional, pois assistimos a filmes absolutamente crus. Neste sentido alguns dos grandes diretores americanos, primos da fase perfecionista de Trier, parecem trilhar o mesmo caminho, apostando em um cinema livre de exageros.

David Fincher é um dos diretores que vêem discutindo o paradoxo de novas possibilidades serem abertas por rígidos dogmas. Torna-se fácil perceber sua semelhança com Trier pois Quarto do Pânico e Europa são filmes similares no sentido de que toda a força que os sustentam reside apenas na genialidade técnica. Em recente reportagem no Guardian, Ryan Gilbey relata a Thomas Vintenberg uma conversa que tivera com Fincher, em que o diretor americano revela um interesse em filmar seu próprio Dogma, dentro das possibilidades proporcionadas pela estrutura em que está inserido. Conta Gilbey que Fincher está discutindo seriamente com Steven Sodenbergh e Spike Jonze o potencial de um "processo de purificação" similar ao proposto pelos dinamarqueses. Gilbey conta que o motivo para tanto, é a consciência destes diretores de uma necessidade urgente de renovação. Ao contar as novidades a Vintenberg ele respondeu "seria interessante ver Fincher se despir, ele está sempre tão elegante."

Assim como no caso da nouvelle vague francesa, a "revolução" esta sendo mundialmente absorvida, não havendo mais sentido em agregar o selo dogma a um filme, uma vez que sua essência já impregnou todo o modo de se produzir cinema. Ademais, Italiano para Principiantes, a motivação deste texto, obteve grande sucesso de público ao ser definido como "uma leve comédia romântica", gênero hollywoodiano por excelência. Se a indústria já entendeu a mensagem, Trier também já foi assimilado, seu novo filme Dogville será estrelado por Nicole Kidman, e ainda terá os oscarizáveis James Caan, Lauren Bacall e Chloe Sevigny no elenco.


 

F. Fischl é Bacharel em Comunicação Audiovisual pela Univ. Federal de São Carlos
filipe@wezen.com.br

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